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Entrevista: Pai Pedrinho fala da sua vida no Candomblé e revela segredos sobre a religião, que nos tempos atuais ainda sofre discriminação na sociedade

Publicada em 26/11/2017 ás 11:42:29
Foto: Anderson Bella - Mídia Recôncavo
O Líder religioso fala sobre a discriminação que o Candomblé ainda sofre na sociedade

Pai Pedrinho, é um babalorixá nascido e criado em Cachoeira, no recôncavo baiano. Ele conta em entrevista ao Mídia Recôncavo sua trajetória no Candomblé e algumas curiosidades dessa religião. Confira:

 

Mídia: Para iniciarmos, o que significa a palavra Candomblé?

Pedrinho: A palavra candomblé significa família, família religiosa, família espiritual.

 

Mídia: E como o Sr. iniciou sua trajetória no Candomblé?

Pedrinho: Eu venho de uma família tradicionalmente da religião de matrizes africanas. Matrizes africanas que o pessoal chama de macumba, no sentido pejorativo, enquanto macumba na verdade é o nome de um instrumento africano (ou seja, macumbeiro é o tocador daquele instrumento que se chama macumba). Então, minha avó era de Candomblé, do Orixá chamado Obaluaê, Senhor da terra (Oba=rei, aiê=terra) e ela também pertencia ao Orixá Oxun, orixá dona do ouro, dona da prosperidade, da beleza, umas das orixás femininas mais belas que existe. Minha mãe também é desta religião e por fim cheguei, que há 28 anos devido a alguns problemas de saúde, inclusive emocional, com tendência a depressão, a espiritualidade me mostrou esse caminho da verdade. Hoje só inspiro e só levo alegria e fomos trazidos para sermos alegres e transmitir alegria, paz e é isso que a religião de matrizes africanas nos traz.

 

Mídia: Qual o nome do seu terreiro? Qual o nome da sua nação e há quanto tempo existe?

Pedrinho: Pois bem, o nome do meu terreiro é “Ilê Axé Otá Lomin”. Ilê significa casa, Otá significa pedra, Lomin das águas, ou seja, Casa das Águas e pode interpretar também como Casa de Força das Águas. Eu sou da nação Nagô-Vodum, originaria do Benin e iniciei meu trabalho quando eu estava ainda na casa da minha mãe, depois constituí família e a gente veio desenvolvendo ao longo desses 28 anos, mas aqui nesse local estamos há 10 anos. 

 

  

 

 

Mídia: Quantos Filhos de Santo frequentam este terreiro?

Pedrinho: É uma pergunta interessante porque nunca se tem um número exato, tem umas pessoas que vem, se preparam e nos tem como pai e nós temos como filho, mas não aparecem mais, então se for contar tudo vamos dizer que temos 28.

 

Mídia: O Sr. trabalha apenas aqui no terreiro ou possui outro tipo de profissão?

Pedrinho: Eu costumo dizer que a gente sempre tem que buscar outras atividades, mesmo porque eu não posso tratar o zelo e a espiritualidade como uma profissão, como um meio de vida. Embora isso não seja crime, isso não seja errado, mas a gente tem que buscar também alternativas. Já trabalhei muito com comércio, viajando, já vendi churrasco, já vendi maça do amor, cachorro quente, amendoim cozido, milho assado, de tudo um pouco. Hoje estou atuando a convite do prefeito da cidade como Coordenador de Igualdade e Reparação Racial, ou seja, não podemos nos limitar a fazer uma coisa só.

 

Mídia: Por que vocês usam roupas brancas e qual a função dos colares?

Pedrinho: Bem, o branco para nós do candomblé tem dois significados, luto e luxo. Nosso luto a gente não usa preto, aliás, nunca usamos preto, nem sequer no dia a dia. Nós quando vamos participar de um evento, principalmente um evento relacionado à nossa religião a gente vai de branco, mesmo que não seja um branco total, mas têm que ter o branco. E as guias que você chamou de colares (risos), se chamam “contas” e outros chamam de “guias”. Guias porque pertence aos orixás que nos guiam, nos alimentam, nos preparam e contas porque colocamos de um a um, contando, conversando e rezando. Mas são símbolos dos orixás, por exemplo, a azul pertence a Ogum, orixá da guerra, quem é da guerra é porque quer paz; a amarela meio dourada é de Oxun; a branca é de Oxalá, orixá maior; a vermelha é de Iansã e outros.

 

 

 

 

Mídia: Quais dificuldades o Sr. enfrentou e ainda enfrenta por ser Babalorixá?

Pedrinho: A princípio logo quando comecei minha vida religiosa enfrentei dificuldade no colégio, pois quando é noviço temos que usar essas guias e usar roupas brancas durante um longo período, mas eu não podia faltar às aulas, tinha que estudar e fui barrado na porta da escola pela professora porque iria causar espanto aos outros alunos. Mas como sempre fui de guerra, sempre fui destemido eu entrei e assisti a minha aula sim e consegui colocar ela no lugar dela. Levei três dias debatendo isso em sala de aula, eu tinha em torno de 14 anos e hoje ela é minha amiga.

 

Mídia: Em sua opinião, qual a forma de lutar contra esse preconceito que esta religião sofre?

Pedrinho: Resistir, resistir e resistir sempre. As pessoas têm esse preconceito justamente por não conhecer, pensam que o candomblé é só para praticar o mal e que é uma religião do diabo, mas os africanos não acreditam no diabo, não existe diabo para nosso povo. Cremos que existe o bem e o mal e todo ser humano tem, agora cabe a mim e a você com a inteligência divina dada por Deus determinar o que a gente vai deixar aflorar, o que vamos deixar prevalecer se é o bem ou se é o mal. No meu caso eu desejo que seja o bem, pois o universo é tão grande e a gente tão pequeno, que amanhã tudo pode acontecer, inclusive nada. Então na verdade temos que ter pena de um tipo de pessoa que pense dessa forma, pois são pessoas que não tem instruções, pois o que não conheço, antes de discriminar, procuro conhecer e se precisar ler 500 páginas de um livro para eu ter entendimento, eu leio e se eu não entender, leio de novo para não ser ignorante e maltratar as pessoas sem fundamento.

 

Mídia: Uma pergunta curiosa. O Sr. joga búzios? O que o jogo de búzios representa?

Pedrinho: Jogo búzios e cartas, só que cartas eu só jogo para mim. É uma das coisas da minha religião que eu mais gosto é búzios, porque eu provo a mim mesmo se realmente tenho vidência para isso. Já provei a muitas pessoas e graças a Deus já provei a mim também. É interessante ver a pessoa pela primeira vez, uma pessoa que você nunca viu e saber coisas da vida dela. O médium ele não pode ser tímido, o que ele vê, ele tem que falar, já eu não gosto muito disso porque tem coisas que podem nos complicar e complicar a pessoa também. Então o jogo de búzios é isso: revelação espiritual.

 

Mídia: Nessa trajetória, algum fato na hora do jogo lhe deixou surpreso?

Pedrinho: Sim, um exemplo interessante foi quando eu morava na casa de minha mãe, aí levaram para fazer uma consulta uma senhora branca, muito rica, estava vestida com roupa normal, não dando sinal nenhum. Quando joguei os búzios vi que ela era da religião de Matrizes Africanas e os búzios revelou quem era o orixá dela e se aprofundou. Ela era de um terreiro onde o pai de santo dela já havia falecido, era uma das primeiras e era a herdeira do axé, herdeira de dar continuidade a casa e ela tinha uma resistência nisso, por ser branca, rica e empresária.

 

 

 

 

 

Mídia: Há um certo tempo dirigia-se muito o homossexualismo ao cabeleireiro, alfaiate, pai de santo e hoje a gente já percebe que isso já virou uma coisa muito normal e vem ganhando espaço. O que o Sr. pensa sobre esse aumento de homossexuais na sociedade?

Pedrinho: Isso é um processo histórico, porque no passado quando as pessoas eram perseguidas elas sempre procuravam um refúgio que eram os quilombos e os terreiros de candomblé, onde os negros eram abraçados e aceitos, inclusive os brancos que eram perseguidos também. A religião de Matrizes Africanas é quem acolhe a todos, os homossexuais, os negros e os brancos. Eu tenho muito respeito a toda e qualquer decisão do ser humano e quando eu ouço alguém dizer que “fulano matou fulano”, não é bom ninguém matar ninguém, o bom é a gente promover a vida e não a morte, mas eu gosto de me recolher e analisar o que levou aquilo, porque nada acontece por acaso, eu não acredito em coincidências. Portanto o respeito tem que haver a todo ser humano independente da sua opção sexual, a gente busca levar para o bom caminho, “bom caminho” (entre aspas), porque às vezes o que é ruim para mim, pode ser bom para você. E em relação ao aumento disso, sempre houve só que a perseguição era tão grande que eles se ocultavam e muitos cometiam suicídio, hoje alguns também cometem porque não conseguem expressar a sua sexualidade ou homossexualidade, mas hoje a liberdade que tem dá para a pessoa se sentir a vontade.

 

Mídia: O que distingue o Candomblé das outras religiões?

Pedrinho: Além da sua antiguidade por ser a primeira religião, desde o tempo de Abrãao que é um Babalaô, uma religião que tem mais de três mil anos, têm sobrevivido a tantas perseguições, tantos conceitos e preconceitos, portanto a espontaneidade da espiritualidade é uma coisa que distingue ela das outras religiões, ou seja, a gente não precisa pagar para falar com Deus, se alguém quiser pagar a consulta ou o trabalho, não é pagar a espiritualidade, mas dar um agrado a mim que também pago, também bebo, sobrevivo, mas se não tiver eu faço do mesmo jeito.

 

Mídia: Muitas pessoas, vêem o Ebó como algo ruim e negativo. Qual a sua avaliação sobre isso?

Pedrinho: O Ebó é uma oferenda e o ser humano é feito do bem e do mal, e para quem não acredita em feitiço, ele existe. Tem pessoas assim como eu que gostam muito de fazer o bem e tem alguns que gostam de fazer o mal, então aqueles trabalhos que a gente vê é justamente uma forma que as entidades “receitam” para afastar qualquer negatividade. Agora imagine uma pessoa que está com dificuldade de entrar na faculdade, ai você faz uma prova e não passa, é nervosismo, é insônia, aí a gente faz um ebó e você passa, qual o mal que houve nisso? Ou você está na UTI, como o caso da minha mãe, eu a enxerguei morta, saindo do hospital pensei em fazer um ebó, fiz as coisas e levei, ai quando chegou no hospital o médico disse: “aqui não pode fazer isso não”, a gente sabe que pastor vai em presidio pregar o evangelho, o padre vai celebrar a missa nos hospitais e porque eu não posso levar para os meus? É só ter fé e meios que a gente consegue, aí o médico liberou, fiz e em três dias minha mãe foi liberada. Então que malefício eu, filho fazer para minha mãe? Mas eu não posso falar só o bom né, existe maldade sim, quando, por exemplo, você está afim do namorado da sua amiga, mas ele não lhe quer, aí você vem e faz um trabalho, quem é o maldoso da história?

 

Mídia: Como nós que não temos nenhum conhecimento da religião ao ver um Ebó podemos identificar o qual é feito para o mal e qual é feito para o bem?

Pedrinho: Não tem como identificar. Por exemplo, você encontra um Ebó e tem nele garrafa de cachaça, linha embolada, vela vermelha, charuto, galinha morta, você olha e vê um negócio estranho, mas ás vezes ali foi feito para um viciado em bebida, e a gente ofereceu as entidades para levar para eles, para afastar o vício dessa pessoa. 

 

 

 

 

Mídia: Cachoeira é reconhecida como a cidade do Candomblé, porque levou essa fama?

Pedrinho: Aqui existe um terreiro antigo chamado Ventura, então os primeiros africanos a vir para o Brasil, setenta anos após o descobrimento vieram os angolanos, então na região do Kaônge aqui em Cachoeira se instalaram alguns desses africanos, tanto que todo mundo lá é parente.  Então tudo isso fortaleceu o nome de Cachoeira em relação à cultura do Candomblé.

 

Mídia: E para finalizar, qual foi o maior ensinamento que o Candomblé já lhe trouxe?

  Pedrinho: Vou lhe citar dois, primeiro fé, uma palavra com duas letras, mas resume tudo. Fé é crer naquilo que você não vê. A gente pode não enxergar a força da espiritualidade, mas a gente sente. E o segundo é paciência, porque nem tudo é quando e como a gente quer, é preciso somar fé e paciência, quem soma esses dois ingredientes tem um grande cardápio e é vencedor.

 

Informações do Mídia Recôncavo/ Cristhiele Teles

Por Redação Mídia Reconcavo
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